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Rúben Ribeiro: «Recusei o FC Porto e o Benfica para jogar no Sporting»


Aos 33 anos e após uma temporada de grande nível na Turquia, com o Hatayspor, Rúben Ribeiro carrega as energias em Portugal e olha com a ambição de um menino a próxima época. Não sabe onde jogará, mas pretende lutar por títulos e continuar a ser feliz em campo. Com a bola, a amiga de sempre. 

O Maisfutebol aproveita a longa entrevista com o talentoso médio, um dos melhores executantes portugueses, para recordar o dia em que se transferiu do Rio Ave para o Sporting, há três anos. Rúben revela que teve a possibilidade de ir para o Benfica ou para o FC Porto, mas que optou pelo emblema de Alvalade pelo estilo de jogo e pela possibilidade de trabalhar com Jorge Jesus.  

PARTE II: «Ganhei em tribunal e nada tenho a pagar ao Sporting»

PARTE I: «Passei o Mundial de Clubes a chorar por não poder jogar»

PARTE IV: «Fui agredido no meu posto de trabalho em Alcochete»

Maisfutebol – O Rúben brilhou no Boavista, mudou-se para o Rio Ave e convenceu o Sporting a contratá-lo. Qual foi o treinador com quem mais gostou de trabalhar nos Arcos?

Rúben Ribeiro – Gostei muito de trabalhar com o Luís Castro e o Miguel Cardoso, até pela forma como procuram colocar a equipa a jogar. Sempre com bola. O Luís foi das melhores equipas que conheci no futebol. Tenho enorme estima por ele e vou guardá-lo para sempre no meu coração. Nunca mudou. Tanto faz vê-lo no Chaves ou no Shakhtar, é sempre o mesmo homem. Não há dinheiro que pague um bom coração.

MF – O Rúben chegou ao Sporting já com 30 anos. Merecia ter ido mais cedo para um ‘grande’?

RR – Não foi por falta de trabalho, de empenho e caráter. Fiz grandes épocas em Portugal. No Beira-Mar [2012/2013] descemos de divisão e consegui marcar oito golos. Fui sempre dos melhores em campo. Lembro-me de um grande jogo que fiz contra o Benfica. Obrigámos o Benfica a jogar de chuto para a frente nesse jogo. Acho que talvez não me tenham compreendido. Achavam que eu era uma pessoa e depois conheciam-me… é o caso do Luís Castro. Ele confessou-me que lhe tinham dito mal de mim e depois teve uma relação espetacular comigo no Rio Ave. ‘Disseram-me que eras isto e aquilo e afinal é um profissional fantástico’. O Luís vai ler isto e pode confirmar. Criaram uma imagem falsa de mim. O Luís Castro deu-me até o exemplo do Quaresma, que ele adorava, e dizia que eu lhe fazia lembrar o Quaresma no feitio e no caráter. Curiosamente, acho que tenho uma boa ligação com todos os treinadores com quem trabalhei. O Costinha é um grande amigo até hoje.

MF – Treinou-o no Beira-Mar e no Paços de Ferreira.

RR – Precisamente. Ele fala e eu sou o primeiro a ouvir com atenção. É inteligente, motivador, partilhava connosco as histórias que tinha vivido com o José Mourinho. Sei que o Costinha se inspira muito nele até hoje. Foi e é uma pessoa exemplar, muito importante na minha carreira. Ensinou-me muito. Gostava de vê-lo a treinar num clube de um patamar alto, é o que ele merece. Ainda não teve essa sorte, tem todas as condições para ser um grande treinador. A sorte vai aparecer-lhe. Adorei trabalhar com ele.

MF – É verdade que recusou o FC Porto para jogar no Sporting?

RR – O FC Porto e o Benfica. No dia em que assinei com o Sporting falei com o presidente Vieira. O Sporting foi o primeiro a convidar-me, depois o FC Porto e depois o Benfica. Tive uma conversa por videochamada com o presidente do Vieira, mas optei pelo Sporting.

MF – O que o levou a optar pelo Sporting em detrimento do FC Porto e do Benfica?

RR – Assinei pelo Sporting porque acreditava que podia ganhar tudo no clube. E pelo estilo de jogo. O Jorge Jesus jogava num estilo apoiado, de passe curto, de ‘toca e vai’. O Sporting estava a lutar pelo primeiro lugar e ser treinado pelo mister Jesus era um objetivo de sempre. Isso foi fundamental para ter escolhido o Sporting. O FC Porto foi campeão, mas tinha um futebol diferente, senti que teria mais dificuldades lá. Não teve nada a ver com dinheiro.

MF – Chegou ao Sporting, foi titular nos cinco primeiros jogos e depois perdeu influência. O que originou essa quebra?

RR – Cheguei e fui titular dois ou três dias depois. Ganhámos 3-0 ao Aves, joguei nas costas do Bas Dost e senti-me importante. Estive à vontade, senti confiança do treinador e dos meus colegas, senti-me livre. Senti-me aquele menino de rua que pega na bola e tem liberdade, com responsabilidade. Em toda a minha carreira foi assim que cheguei ao sucesso. Ter bola, tocar a bola, ter confiança para criar. Nesse jogo acho que não falhei um passe, controlámos o jogo e ganhámos facilmente.

MF – E depois?

RR – Depois houve muito problemas dentro e à volta do grupo de trabalho. Eu idealizava um clube grande de outra forma. Não senti isso, não senti que estava num bom grupo. Além disso comecei a jogar como extremo puro. Nunca fui um extremo puro, joguei sempre entre linhas. Vinha de seis meses brutais no Rio Ave, estava a ser um dos melhores jogadores do campeonato, tive os três grandes a lutarem por mim e, de repente, deixei de me sentir importante. Para render ao máximo eu tenho de sentir liberdade para jogar no risco. Ter a bola é uma responsabilidade e não há liberdade sem responsabilidade. Não me senti bem nas posições onde o Jorge Jesus me colocou, depois de seis meses a jogar na equipa que melhor futebol praticava em Portugal, o Rio Ave. Mandávamos na bola, saíamos a jogar com grande qualidade com o guarda-redes e em três/quatro passes chegávamos ao ataque. Foram seis meses brilhantes.

MF – No Sporting teve seis meses maus.

RR – Representar um Sporting é um privilégio e eu senti-o. Mas não correu bem. A partir de dada altura passei a ser só mais um. Comecei a ter um rendimento baixo e a não ter influência com bola. Depois os resultados pioraram e aconteceu o que toda a gente sabe [invasão a Alcochete].

MF – O ambiente no balneário era pior do que em Vila do Conde?

RR – Não tinha nada a ver, nada. Há outro tipo de egos, as mentalidades são mais reservadas e menos amigas. Menos unidas, até. É cada um por si. Refiro-me a esse Sporting, atenção. Saí de um Rio Ave familiar, onde toda a gente adora jogar, para um balneário menos bom. No Rio Ave íamos almoçar 10/12 colegas, jantávamos juntos várias vezes, acabavam os jogos e íamos quase todos comer qualquer coisa juntos, era um grupo incrível. E mudar para Alvalade foi duro. ‘Cheguei tanto para chegar aqui e sinto-me tão desiludido, sem prazer, sem gosto’. Lembro-me perfeitamente de pensar isto quando estava no Sporting. Não havia aquela mentalidade de dar tudo pelo colega, fazer um carrinho, trincar os lábios.

MF – Como foi a relação com o Jorge Jesus?

RR – Normal. Ele falava bastante comigo, sinto que me quis ajudar, não tenho nada a apontar. Sou-lhe grato.



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