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Os adjetivos que Jorge Jesus não soube utilizar


«CHUTEIRAS PRETAS» é um espaço de Opinião do jornalista Pedro Jorge da Cunha. Pode seguir o autor no Twitter. Calce as «CHUTEIRAS PRETAS».

Adjetivo: palavra que qualifica, determina ou relaciona o nome, permitindo variação em género, número e grau (in dicionário Porto Editora).

Perguntaram a Jorge Jesus se conseguiria definir a temporada do Benfica com um adjetivo. O treinador, muito mais hábil no mundo do treino do que no labirinto da gramática, não conseguiu.

«Falhámos.»

Jesus preferiu responder com a primeira pessoa do plural do pretérito perfeito do verbo falhar. Recusou o adjetivo e aplicou uma forma verbal. Para ser justo com ele, na prática não houve grande diferença de rendimento.

O verbo falhar, aliás, poderia ser conjugado em todos os seus tempos e em todas as suas formas. Ficaria sempre bem como resumo da temporada do Benfica. Aí, Jesus não se enganou.

Mas se Jesus tivesse recorrido a um adjetivo, provavelmente não andaria longe disto: frustrante; dececionante; negativa; má; irregular.

Qualquer um dos adjetivos seria perfeitamente aceitável na resposta do treinador. Jorge Jesus foi pelo lado verbal. E não foi mal. Todo o mal fosse esse na comunicação feita pelo treinador ao longo desta campanha. E era aí que eu queria chegar.

Vamos por pontos.

1. Jorge Jesus é e será enquanto quiser um grande treinador de futebol

2. Jorge Jesus é e será sempre – convicção minha – um treinador incapaz de assumir os erros que comete na hora da derrota.

Pensei que o treinador tinha regressado diferente do Brasil. Mudei de ideias logo na tarde da apresentação. Teve um plantel com reforços que custaram 100 milhões de euros, teve um presidente capaz de tudo fazer para o levar de volta para o Benfica e teve a audácia de prometer uma equipa a «jogar o triplo» e «arrasar».

Jesus foi vítima, mais uma vez, das suas próprias palavras. O treinador ainda não percebeu que o seu discurso é muitas vezes capitalizado pelos adversários. Há paredes de balneários de outras equipas forradas com afirmações de Jesus nas salas de imprensa.

Se não percebeu até agora que isso é dar armas aos outros, acredito que já não perceberá a tempo.

Mas esse não é o único problema. No final dos jogos difíceis, com resultados maus, Jesus encontrou sempre uma desculpa para o insucesso. Olhou sempre para fora e nunca para o que ele e a equipa do Benfica fizeram de mal.

No DOSSIER que o Maisfutebol hoje publica, isso está bem explicado. Deixo aqui um breve resumo:

Na derrota em Salónica foram as «oportunidades perdidas na frente»; no Bessa foi «o excesso de faltas» cometido pelo Boavista; em casa contra o Sp. Braga foram «as muitas mexidas no quarteto defensivo»; na Supertaça contra o FC Porto foi «o jogo mais consolidado» dos dragões; na receção ao Gil Vicente foi «o antijogo permitido pelo árbitro»; e na final da taça foi a expulsão de Helton Leite – sobre este lance sugiro que ouçam a opinião do expert da TVI, Pedro Henriques.

Havia mais por onde escrever. Bastaria lembrar a expulsão de Fransérgio ainda na primeira parte do Sp. Braga-Benfica para o campeonato, também ela polémica; ou o desabafo após o empate contra o FC Porto, quando Jorge Jesus afirmou que o Benfica ainda podia ganhar dois títulos e que os dragões já não ganhariam nada.

O treinador do Benfica colocou a Taça de Portugal e a consequente Supertaça na sua equação, mas não utilizou a mesma lógica com a Supertaça ganha pelo FC Porto em dezembro. É difícil acompanhar o raciocínio de Jorge Jesus. Principalmente quando perde.

Daí que me seja particularmente angustiante ouvi-lo a falar, uma e outra vez, do surto de covid que arruinou a época do Benfica. E eu, que tanto senti na pele as dores da covid-19, tenho um respeito absoluto por quem enfrenta a doença.

Sobre isso, o melhor é recuperar o levantamento feito pelo Maisfutebol no final do mês de janeiro.

Os leitores tirarão as suas conclusões.

PS: se Jorge Jesus é um dos grandes derrotados da época, Luís Filipe Vieira é O derrotado. Mas sobre esse senhor, principalmente depois do que vi na comissão parlamentar de inquérito, é a mim que faltam os adjetivos. 

«CHUTEIRAS PRETAS» é um espaço de Opinião do jornalista Pedro Jorge da Cunha. Pode seguir o autor no Twitter. Calce as «CHUTEIRAS PRETAS».





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