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Oasis vs Blur: a final da ‘Britpop’ na Champions do Dragão


O ano é 1994, o Reino Unido procura novas sonoridades. Os EUA invadem as playlists europeias com um indie rock negro, depressivo, de tendências suicidas e refrãos despudorados. Chamam-lhe grunge.

Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains, Stone Temple Pilots. Um plantel de luxo.

De drama e céus cinzentos já os teen britânicos estão esgotados. Querem dançar, querem apaixonar-se por melodias mais frescas. Mais coloridas. Descobrem os Blur, entregam-se aos Oasis, fecham os olhos com os Pulp e os Suede.

Britpop. O som e as letras enfatizam o Cool Britannia, tudo o que é bom no ser britânico. A cultura pop confunde-se com a forma de vida do território e há dois álbuns, em particular, que se tornam verdadeiras bíblias musicais.

Definitely Maybe, dos Oasis. Cinco rapazes dos subúrbios de Manchester liderados pelos truculentos irmãos Gallagher, Noel e Liam. Live Forever é a música que povoa os corações adolescentes e o imaginário de pubs, ruas estreitas, noites frias e estádios de futebol.

Parklife, dos Blur. Quatro tipos com ambições intelectuais, gosto refinado e que a dada altura das vidas se cruzam na região metropolitana de Londres. Damon Albarn é o vocalista e líder não oficial do quarteto formado com Alex James, Graham Coxon e Dave Rowntree.

A rivalidade atinge níveis pouco recomendáveis. A batalha pelas charts extravasa para os tabloides e para o lado pessoal. Escândalos não faltam, as manchetes agradecem, a Inglaterra forma barricadas e divide-se em dois planos: os que amam os Oasis e os que veneram os Blur.

Futebol. Futebol, claro. Noel e Liam Gallagher são fanáticos pelo Manchester City. Damon Albarn é apaixonado pelo Chelsea. No dia 29 de maio, o Estádio do Dragão será o palco (lá está) de mais um duelo.

É a final da Liga dos Campeões com um toquezinho de pop britânica.

Noel e Liam iam atrás do City para todo o lado, até na 2ª divisão

«Deixei de sentir as pernas quando o Torres marcou ao Barça»

1995, a luta continua. Em setembro, os Blur lançam o brilhante The Great Escape. Country House, Charmless Man e, sobretudo, a belíssima The Universal. Os Oasis respondem em outubro com o não menos inspirado (What’s the Story) Morning Glory?. Some Might Say, Don’t Look Back in Anger e a eterna Wonderwall.

Por esses dias, Damon Albarn e os manos Gallagher são mais famosos e bem-sucedidos do que os futebolistas das equipas do coração. Nessa época desportiva de 95/96, muito antes da era dos investidores multimilionários, o Chelsea acaba a Premier League acaba a época num modestíssimo 11º lugar e o Manchester City… fica em 18º e desce de divisão.

Os resultados são fracos, mas o Chelsea e o City já estão há muito nas vidas de Albarn e dos Gallagher.

Damon nasce em Leytonstone e muda-se para Londres em 1989. É na capital britânica que cultiva o amor e a ligação com os blues, já com 21 anos, como explica numa entrevista dada ao site oficial do Chelsea, após uma visita a um treino da equipa então treinada por José Mourinho, em 2014.

«Os meus amigos eram quase todos adeptos do Chelsea. Comecei a ir com eles a Stamford Bridge, que não era propriamente um lugar bonito para se ver na altura. O meu primeiro jogo ao vivo foi em 1990, Chelsea-Aston Villa», conta o frontman dos Blur – e dos Gorillaz, e dos The Good, The Bad & The Queen…

«Compro o bilhete de época desde 1991. Só não vou aos jogos em casa se me for mesmo impossível. Comecei na East Stand, mudei-me para a Old Shed e agora estou na Matthew Harding Stand

Mestre da palavra e do som, Damon compara a ida ao futebol com um concerto dos Blur. E diz que nada se compara à «sensação de ver futebol no meio de amigos». «Essa é a magia. Chegar ao meu lugar e ter ao lado as mesmas caras, sempre. Prefiro estar no meio da bancada, rodeado de gente boa, por oposição a estar no palco e atuar para dezenas de milhares de pessoas.»

E o jogo da vida de Damon Albarn? Resposta fácil, escolha simples. «Barcelona-Chelsea, meias-finais da Liga dos Campeões [2-2, 25 de abril de 2012]. Deixei de sentir as pernas quando o Torres empatou nos descontos. Aquilo não estava no script, simplesmente aconteceu. Esse é o jogo em que o Messi também falha um penálti. Estas emoções só se encontram num jogo de futebol.»

Liam e Damon, Oasis vs Blur num relvado londrino em 1996

Insultos e picardias no relvado (para a fotografia?)

1996, polémica no relvado de Mile End, Londres. Um evento de caridade junta num torneio de futebol os nomes maiores da música britânica. Os Reef, respeitável conjunto de Glastonbury, são os vencedores do dia, mas isso pouco interessa aos media.

Porquê? Liam Gallagher e Damon Albarn são adversários num dos jogos e fazem o que deles se espera. Picam-se, insultam-se e quase chegam ao confronto físico. Liam usa um chapéu caqui com o azul do City, calças de fato de treino azuis escuras e uma camisola de tom citizen. Damon leva um gorro do Chelsea, tshirt e calções azuis escuros.

Não se sabe se faz tudo parte da representação. Um ato de teatro desempenhado por duas das personagens mais amadas (e odiadas) em Inglaterra. O que se sabe é que as fotografias os apanham em plena discussão no relvado, antes de… se abraçarem e explodirem em gargalhadas. Essa é a parte que já não aparece nas notícias.

VÍDEO: Liam e Damon no famoso duelo na relva em 1996

Se pensarmos bem, tudo faz sentido. Os Blur precisam dos Oasis para serem os Blur; os Oasis precisam muito dos Blur para serem os Oasis; no ano seguinte, 1997, os novos discos são novamente um sucesso de vendas.

Be Here Now, dos Oasis, é lançado em agosto, meses depois de Blur, álbum homónimo da banda de Damon Albarn. The Show Must Go On e, se preciso for, nada como uma boa futebolada para agitar os fãs e solicitar uma prova de afeição e fanatismo.

«Havia porrada, cerveja e cabelos ‘à Rod Stewart’»

Os Blur são mais complexos. Divagam por vários estilos, introduzem elementos eletrónicos com sofisticação, têm Rowntree e James sólidos na percussão, o génio de Coxon na guitarra e o carisma de Albarn em tudo o resto.

Nos Oasis há guitarras mais agressivas. Rancorosas. Símbolo de uma Manchester agreste e de um corpo familiar disfuncional, a casa dos Gallagher. Até a ligação com o City é um confronto em relação ao encontro tardio de Albarn com o Chelsea.

«O primeiro jogo que vi com o meu pai foi o City-Newcastle, em 1971. Eu tinha quatro anos. O City passou a ser o meu clube», escreve Noel Gallagher, em 2000, num magnífico artigo publicado pelo The Guardian.

«Durante uma década, o City é o clube mais forte de Manchester. Lembro-me de ver o United na segunda divisão e rir-me deles. Anos mais tarde, quando eles dominam a Europa e nós sofremos semana após semana, penso nisto: ‘por que raio o meu pai não me levou em 71 a Old Trafford em vez de me levar a Maine Road’.»

VÍDEO: Liam Gallagher e «Blue Moon» dedicado ao City

A resposta é simples, conta Noel. O pai dos manos Gallagher detesta todos os seus irmãos. E se eles são do United, a opção é simples: ser do City. «Ele sentava-nos num pequeno muro de tijolo que havia atrás de uma baliza e ao intervalo pisgava-se para o bar com os amigos. (…) Havia porrada frequentemente. E muita cerveja e cabelos ‘à Rod Stewart’. Essas são as minhas primeiras memórias de adepto do City.»

O pai de Liam e Noel nasce na Irlanda e emigra para Manchester à procura de uma vida melhor. Adora futebol e apostas. Ao sábado troca muitas vezes o estádio pelas corridas de cavalos.

«A minha mãe começou a deixar-nos ir sozinhos aos sábados à tarde. Entre os meus 12 e 21 anos, não falhei um jogo do City em casa», completa Noel. «O amor é isto. Descemos à segunda divisão e íamos para todo o lado ver o City. Fui de comboio para Oxford, Barnsley e Ipswich, sítios que pareciam ficar a seis meses de distância.»

Damon Albarn à conversa com Frank Lampard em 2014

Damon, Liam e Noel juntos no estádio do FC Porto?

Se Noel é um adepto de memórias, Liam é um homem de escândalos. Em 2012, o vocalista dos Oasis é expulso do Santiago Bernabéu durante o jogo de abertura da Liga dos Campeões. O City marca primeira e Liam festeja como um louco, rodeado de espanhóis, subindo e descendo escadas.

A polícia, na verdade, salva-lhe a pele. Noel é mais contido. Promete, certo dia, chamar Carlito Gallagher ao segundo filho, em homenagem a Carlos Tévez, mas a mulher não o permite. A criança é batizada com um nome mais vulgar: Sonny Patrick.

«Tenho saudades do antigo estádio, Maine Road. Acho que os melhores momentos da minha vida foram os dois concertos que os Oasis deram lá», diz Liam numa conversa com o The Guardian, em 2017.

Os Blur continuam ativos, oficialmente. O disco mais recente data de 2015, The Magic Whip. Os Oasis estão parados desde 2009. A má relação entre os irmãos Noel e Liam provoca o lento definhar do grupo. O último álbum é lançado em 2008, Dig Out Your Soul.

«Lamento, mas chega. Não consigo trabalhar nem mais um dia com o Liam. É insuportável», dispara Noel. Os irmãos afastam-se completamente.

Sábado, Manchester City e Chelsea têm um dos jogos mais importantes das respetivas histórias. Liam quer estar no Dragão e pede ajuda a todos para arranjar um bilhete, até ao FC Porto.

The Great Escape.

25 anos depois do duelo ao sol – sim, estava sol em Londres! – na relva de Mile End, seria magnífico juntar o Damon e Liam no estádio do FC Porto. E se Noel alinhar na brincadeira?

Definitely Maybe.



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