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«Fazia 500 quilómetros três vezes por semana para treinar no Benfica»


Filho único, Fábio Cardoso cresceu em Águeda na Loja dos 300 dos pais e foi levado para o futebol por um tio. Aos 12 anos aventurou-se nuns treinos de captação e foi selecionado pelos responsáveis do Benfica. Ficou dez anos ligado ao clube da Luz, foi convocado uma vez por Jorge Jesus para a equipa principal, mas saiu sem se estrear. 

Nesta parte da entrevista ao Maisfutebol, Fábio fala sobre as personagens que mais o marcaram na passagem pelas águias e faz uma visita ao início de tudo, com um agradecimento emocionado aos pais, Teresa e Paulo.  

PARTE I: «Vitória por 4-3 na Luz foi o momento mais marcante»

PARTE II: «Fui jantar a casa do Bruno Alevs e ele estava vestido de Drácula»

Maisfutebol – O Fábio é de Águeda. Que memórias mais fortes guarda da sua infância?

Fábio Cardoso – É tudo muito à volta do futebol. Os meus pais tinham umas Lojas dos 300 [lojas económicas que vendiam um pouco de tudo] e lembro-me de estar a jogar atrás do balcão à bola. A minha mãe chama-se Teresa, o meu pai chama-se Paulo e sou filho único. Eles eram de aldeias diferentes, casaram-se e foram viver para Águeda. Não tenho irmãos. Depois, um tio meu fez uma equipa para um torneio inter-freguesias – o padrinho era o Nelson, antigo guarda-redes do Sporting – e comecei a jogar. Ficámos em últimos (risos). Mais tarde, talvez com nove/dez anos, fui treinar ao Recreio de Águeda.

MF – Como é que os senhores Teresa e Paulo encararam a saída do filho para o Benfica, só com 12 anos?

FC – Sou muito grato aos meus pais. Tenho de frisar publicamente isso. Foi um esforço conjunto. Numa primeira fase eu continuei a viver em Águeda e ia treinar a Lisboa, além de jogar ao fim-de-semana. Estamos a falar numa viagem de 500 quilómetros, ida e volta, três ou quatro vezes por semana. O meu pai fazia as viagens comigo, foi um esforço financeiro e físico. Eu estudava, saía das aulas às 15h00 e tinha de estar em Lisboa às 19h30 para treinar. Nunca vi o meu pai mal disposto nessas viagens. E a minha mãe esperava por nós com a comida feita. Às vezes chegávamos depois da meia-noite. O meu pai acordava cedo para trabalhar, depois levava-me e trazia-me de Lisboa, jantávamos sempre tardíssimo.

MF – Como é que o Benfica o descobriu tão pequeno em Águeda?

FC – Não foi o Benfica que me descobriu, eu é que descobri o Benfica (risos). Houve treinos de captação do Benfica em Taboeira, Aveiro, eu fui tentar a minha sorte e fui um dos selecionados. Estavam lá o Nanu (FC Porto), o Guilherme Matos (ex-Benfica e agora no Luso) e o Manafá (FC Porto). O Manafá… não tenho a certeza. Depois fui treinar ao Estádio da Luz. Eu era avançado e marcava muitos golos. Quem me puxou para trás foi o mister Luís Nascimento, o irmão do Bruno Lage.

MF – Qual foi o treinador da formação do Benfica que mais o influenciou?

FC – Mantenho uma relação muito boa com antigos treinadores e dirigentes. Diria que o Bruno Lage foi dos que mais me marcou. Fui duas vezes campeão com ele, era uma pessoa carismática e a forma como nos transmitia a mensagem era marcante. O próprio Luís Nascimento também. Não sei se é por serem irmãos (risos). São muito fortes a comunicar. Mas há mais. O Luís Araujo, o Bastos Lopes, o Chalana. Foi um prazer privar com uma lenda do nosso futebol. Ainda jogava muito e era difícil de marcar nos treinos. E tenho de mencionar o mister João Tralhão. Trabalhámos pouco tempo juntos, porque eu já estava na equipa B, mas ofereceu-me o título que me faltava: o Nacional de Juniores. Na equipa B trabalhei com o mister Norton de Matos e o Helder Cristóvão. Mantenho contacto com o Norton de Matos, gosto muito dele.

MF – Foi convocado uma vez para a equipa principal do Benfica.

FC – E estava para entrar. Foi num jogo em Olhão para a Taça da Liga [19 de dezembro de 2012] contra o Olhanense do Sérgio Conceição. O mister Jesus não disse que eu ia entrar, mas percebi pelos treinos que ele me ia dar essa prenda se o jogo o permitisse. Acabei por nunca me estrear. Mas começámos a perder e o mister Jesus teve de meter os pesos pesados (risos).

MF – Treinava regularmente com o plantel principal do Benfica?

FC – Sim, não estava fixo no grupo, mas treinei muitas vezes com eles e contra eles.

MF – O que impressiona mais no Jorge Jesus a quem trabalha com ele todos os dias?

FC – Sendo defesa diria que uma das grandes qualidades dele era a forma como trabalha a linha defensiva. E na altura víamos uma linha defensiva coordenadíssima. Isso ajuda o resto da equipa. E depois, claro, a intensidade dele. Ele e o Sérgio Conceição vivem os treinos como vivem os jogos, percebe-se isso facilmente.

MF – Gosta de trabalhar com treinadores mais emocionais?

FC – Fui treinado pelo Paulo Fonseca, um dos melhores portugueses, e ele não era emocional. Era calmo, explicava muito bem as ideias e adorei trabalhar com ele. Ter bola, dominar o jogo com bola, foi um prazer trabalhar com o Paulo. Ou seja, adapto-me bem a qualquer tipo de técnico. O Luís Araujo, que me treinou na formação do Benfica, berrava muito e era muito emocional. Uma vez disse-me assim: ‘Fábio, tens de te preocupar é quando eu deixar de berrar contigo’. Temos de aceitar essas diferenças, logo que não haja faltas de respeito.

MF – Foi fácil sair do Benfica e partir para Paços e depois Setúbal?

FC – Em Setúbal foi muito fácil porque eu já tinha casa no Seixal e era pertinho. O Paços de Ferreira foi uma boa surpresa. Até o comparo ao Santa Clara. Muito bem organizado, familiar, trabalhavam com um hotel no centro da cidade, os dirigentes resolviam tudo. Fui muito bem tratado. Não são as mesmas condições do Benfica, mas isso não me faz confusão. Não me faltou nada.



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