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«Assinei pelo Forest com o peso dos troféus da Champions nas costas»


Robin dos Bosques roubava aos ricos para dar aos pobres. Yuri Ribeiro mergulhou na lenda do herói da floresta de Sherwood e passou dois anos à procura de devolver o histórico Nottingham Forest ao clube dos grandes: a Premier League. 

O lateral esquerdo de 24 anos, ex-Benfica, fez mais de 50 jogos e elevou o seu futebol a um patamar altíssimo, nos palcos de exigência máxima do Championship. Yuri impôs-se no emblema que tem duas Taças dos Campeões Europeus no palmarés, mas que continuará a andar, pelo menos mais uma época, fora do escalão máximo britânico. 

No final da segunda época no Forest, o Maisfutebol desafia Yuri Ribeiro a desabafar memórias e a atirar para o meio da conversa o que pretende da carreira num futuro imediato. O contrato em Nottingham acaba agora e o defesa passa a ser um atleta livre para decidir o futuro. 

Histórias, desafios e anseios do menino nascido na Suíça e criado em Vieira do Minho. 

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Maisfutebol – Fez mais de 50 jogos pelo Forest nestas duas épocas. O balanço da passagem por Inglaterra é bom?

Yuri Ribeiro – O balanço é muito positivo. Fiz muitos jogos e esse era o maior objetivo. Saí de uma época no Benfica onde joguei pouco e a minha vontade passou a ser essa: jogar regularmente. No Benfica as coisas não me correram bem do ponto de vista individual – do coletivo sim, fomos campeões – e precisava mesmo de voltar a sentir-me útil. Tive convites de Portugal, mas o projeto do Nottingham Forest pareceu-me muito interessante. E era em Inglaterra, onde todos os jogadores sonham um dia jogar. O Championship é um campeonato espetacular. O poder físico dos jogadores é enorme e há equipas cheias de qualidade. Basta olhar para o Leeds. Subiu à Premier League, manteve a base da equipa e está a fazer uma época ótima.

MF – Na época passada jogou os 90 minutos contra o Chelsea na FA Cup. Que diferenças sentiu entre o seu Forest e uma das melhores equipas inglesas?

YR – Contra esse Chelsea senti que não podemos errar atrás. É proibido. Perdemos 2-0 e fizemos um bom jogo. No andamento não senti grandes diferenças. Treina-se muito bem no Championship, treina-se de forma diferente à que se treina em Portugal, e eu senti logo isso nos primeiros dias. O aspeto físico é muito valorizado. Portanto: o andamento é similar, mas na frente eles não perdoam.

MF – Tendo em consideração esse aspeto físico, o Yuri foi forçado a fazer um ‘upgrade’ no seu jogo?

YR – Todos os atletas têm de melhorar. Acho que evoluí bastante do ponto de vista físico. Não sou alto, mas tenho andamento e faço os 90 minutos com intensidade. Mas evoluí na força e na mentalidade. Em Portugal e em Espanha a bola anda menos no ar. Aqui tive de me tornar mais forte no jogo aéreo e nos duelos, essas são as vertentes onde mais cresci.

MF – Falava há pouco do tipo de treino. No Forest trabalhava de forma diferente à que fazia no Benfica e no Rio Ave?

YR – A maior diferença está no trabalho de ginásio. Em Inglaterra fazemos diariamente uma ativação no ginásio antes do treino no relvado. E só nos dois dias antes dos jogos é que não fazemos ginásio depois do treino. Em Portugal não era assim. Depois do treino, raramente era obrigatório ir ao ginásio. Nós, os portugueses, falávamos sobre isso aqui no Forest porque era uma novidade para nós.

MF – Que retrato faz do histórico Forest e da cidade de Nottingham?

YR – Estamos a falar de um clube que venceu duas vezes a Liga dos Campeões [Taça dos Campeões Europeus, 1979 e 1980] e que tem condições para estar na Premier League, se corrigir algumas coisas. Tem uns adeptos que são dos melhores em Inglaterra. Chegámos a ter quatro mil adeptos atrás de nós, em estádios de outros clubes, em jogos à quarta-feira. Nottingham é uma cidade acolhedora. Mais calma, com pouca oferta. Há atletas que preferem jogar, por exemplo, no Fulham porque é em Londres. Eu gostei de estar em Nottingham.

MF – Os adeptos do Forest já foram duas vezes campeões europeus. Como é que reagem à presença no segundo escalão?

YR – São muito exigentes e fazem sentir isso aos jogadores. Quando fui assinar, lembro-me de ter o peso dos dois troféus da Champions nas minhas costas. Se um clube é histórico, como este, tem de carregar esse peso para dentro do campo. É complicado voltar a ter o Forest na Champions, mas continua a ser um clube grande.

MF – Quando acaba o seu contrato?

YR – Acaba dentro de um mês e meio e não vou continuar, acho eu. Preciso de outros desafios. Sinto que o Forest pode voltar à Premier League, tem condições para isso, mas há coisas a corrigir.

MF – Por onde passará o futuro imediato?

YR – Tenho saudades de casa, principalmente por estarmos a atravessar esta pandemia. Este foi o ano que teve mais regresso de jogadores a Portugal. É um aspeto determinante. Acho que os futebolistas privilegiaram o conforto da família. Regressarei a Portugal com todo o gosto, mas sinto que posso fazer coisas diferentes no estrangeiro. Estou preparado para tudo e recetivo a bons convites.

MF – Quando falamos em Nottingham pensamos também em Robin Hood [Robin dos Bosques]. Há algum museu ou algum tour associado à personagem na cidade?

YR – Sim, há o Museu do Robin dos Bosques. Ficava a dez minutos de minha casa e fui visitá-lo com a minha namorada. Tentámos integrar-nos bem na cidade. Apesar disso, as pessoas não falam muito sobre a lenda da personagem, é uma coisa mais turística.

MF – Do ponto de vista financeiro, vale a pena trocar Portugal pelo Championship?

YR – Sim, há diferenças grandes. O poderio financeiro dos clubes do Championship é muito interessante. Posso dizer que há clubes neste escalão a pagar tão bem como o FC Porto, Sporting e Benfica. Diria que isto acontecesse com cinco/seis equipas do Championship. O orçamento é muito alto. Os restantes têm orçamentos um pouco mais baixos, mas superiores aos das equipas portuguesas, talvez ao nível do Sp. Braga.

MF – Nesta época teve o Tobias Figueiredo e o Cafú consigo.

YR – Sim, e o ano passado tive o Alfa Semedo, o João Carvalho e o Tiago Silva. Além do Krovinovic. Faz toda a diferença ter a companhia de compatriotas, a integração é muito mais simples. O João está bem no Almeria, o Tiago foi campeão no Olympiakos, mantemos a ligação. Ficámos mesmo amigos.



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