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20 anos do Boavistão: olimpíadas no Parque, bênção papal, invasão a Alverca


* com Pedro Monteiro (TVI)

Num campeonato de 34 jornadas e mais de 3000 minutos há cenas principais e secundárias, protagonistas e figurantes, muito para recordar e por contar. Quais os pontos cardeais, os momentos-chave da Liga ganha pelo Boavista em 2001, há exatamente 20 anos?

Os nossos sete convidados não variam muito nas respostas. Quase todos evocam as vitórias por 1-0 contra o Sporting e o FC Porto no Bessa, sempre com golos de Martelinho, mas Litos fala num episódio que, por culpa do avançar dos anos, estará mais esquecido: o triunfo em Alverca, a 28 de abril, jornada 30.

Ganhámos 2-1 [Duda e Silva para o Boavista, Mantorras para o Alverca] e sentimos que tínhamos passado um enorme obstáculo: ‘É isto, já ninguém nos segura’. A bancada estava repleta de malta do Boavista, acho que foram quase 50 autocarros [48] para o Ribatejo. Esse jogo foi determinante.»

A invasão a Alverca também é mencionada por Quevedo. «Os adeptos ajudaram muito. No jogo decisivo contra o Aves, claro, mas aí em Alverca foi qualquer coisa do outro mundo. Estávamos a 300 quilómetros do Porto, fomos para aquecimento e vimos aquilo… eh pá, aquela gente não podia voltar para casa sem uma vitória.»

Ser campeão não surge do nada. Por acaso. O Boavista anda anos a namorar o topo do campeonato [segundo em 1998/1999, quarto em 1995/1996 e 1999/2000] até à união de facto com o título.

Litos e Alfredo adicionam mais uma explicação, de forma a explicar o inexplicável. «À quarta-feira acordávamos e já sabíamos que íamos treinar para o Parque da Cidade. Custava? Claro, chegávamos mortos a casa. Aquilo parecia as Olimpíadas, mas verdade é que nos dava um pulmão incrível.»

«Acabávamos os jogos com grande frescura», concorda Alfredo, um dos adjuntos de Jaime Pacheco. «Em determinadas alturas chegávamos ao balneário e havia malta a rir-se: ‘Por mim jogava mais um jogo agora’.»

Quevedo junta-se à conversa e recorda de forma detalhada esse tipo de treinos no Parque. Um tipo de trabalho que está completamente em desuso. No futebol moderno não há crosses no pinhal.

O Jaime Pacheco formava três grupos: o da frente era onde eu estava, a malta com mais ‘pedal’; o do meio era o pessoal que se safava e o de trás eram os mais lentos. O Jaime corria com a malta do grupo do meio e passava aqueles quilómetros a gritar para o grupo de trás, para eles tentarem apanharem os que estavam mais à frente. O homem não parava.»

As ‘olimpíadas no Parque’, a invasão a Alverca e o que mais? Duda, um homem de fé e conhecido como Apóstolo Carlos Eduardo Ventura no Brasil, revela a importância da ida a Roma e da bênção papel do saudoso João Paulo II.

«Saúdo os peregrinos e visitantes de língua portuguesa, em particular os dirigentes e jogadores do Boavista Futebol Clube», disse o Santo Padre, numa janela com vista para a Praça de São Pedro.

A seguir, a comitiva axadrezada teve o privilégio de entrar numa zona mais privada. Ofereceu uma bola e uma camisola assinada por todos os elementos da comitiva. Na noite desse 9 de novembro de 2000, o clube das ‘camisolas esquisitas’, como ficou eternizado em Itália, empatou com a AS Roma e até foi eliminado da Taça UEFA, mas Duda – autor do golo no 1-1 – não esquece o impacto do momento sagrado.

«Tenho a convicção de que esse confronto nos deu a energia que precisávamos para o que restava da temporada. Foi um momento tocante, intenso. Guardo dentro de mim tudo o que senti no Vaticano e em Roma.»

O sagrado (Roma), o profano (a invasão popular ao Ribatejo) e o corpo (os treinos no Parque). Três formas de olhar para o título único do Boavistão.



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